sábado, 17 de outubro de 2009







O vigia fica a 500 km


Ibama fiscaliza o sul do Amazonas por satélite
José Maria Tomazela
Serraria Santo Antônio do Maturi, entre Humaitá e Apuí. Foto: José Luís da Conceição/AE

José Maria Tomazela revela que o garimpo, o gado e a soja avançam rumo ao Amazonas

Projeções sobre a destruição da Amazônia

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APUÍ (AM) - É como se a floresta se dissolvesse: o sul do Amazonas perdeu cerca de 2 milhões de hectares de floresta por ano nesta década. O Ibama, que deveria conter a devastação, olha tudo de longe. Monitora imagens de satélites em Manaus, a cerca de 500 quilômetros. Na região onde as motosserras e o fogo dizimam a floresta, os fiscais só aparecem uma vez por ano e ficam por um mês. Nessa época, os madeireiros tiram suas férias. “Quando a gente entra nas serrarias, vê dezenas de caminhões parados”, revela o analista ambiental Geraldo Motta.
Em setembro, os fiscais chegaram com a missão de localizar e autuar os responsáveis por 116 polígonos (áreas) de desmatamento. Em 15 dias, localizaram 77; destes, 22 foram multados em mais de R$ 5 milhões pela derrubada de 2,5 mil hectares. Alguns polígonos estavam em reservas ambientais e terras da União. Mas a fiscalização não chegou ao maior desmatamento mostrado pelos satélites: uma clareira de 1,5 mil hectares, equivalente a 1.500 campos de futebol, foi rasgada de um dia para o outro em Novo Aripuanã, provavelmente para formar uma fazenda de gado. “É dificílimo chegar lá, vamos ter de usar avião”, conta Motta.
Quando fiscaliza a região, a equipe do Ibama fica baseada em Apuí, na sede do Instituto de Proteção Ambiental do Estado do Amazonas (Ipaam), o órgão estadual de meio ambiente. Em 2005, Motta autuou três amigos do promotor da cidade, flagrados com motosserras no interior da Floresta Nacional de Jatuarana. As máquinas foram apreendidas e cada um recebeu uma multa de R$ 50 mil.
A pressão dos agropecuaristas coloca em risco o mosaico de unidades ambientais da região, explica o engenheiro florestal David Alves da Silva, do Ipaam. São dez reservas ambientais, num total de 3,2 milhões de hectares, além de 15 reservas indígenas. Elas deveriam estar protegidas, diz David, mas fiscais detectaram a venda de lotes e projetos de manejo dentro das unidades: “Quando a fraude é revelada, o comprador já desmatou.” E é o Ipaam que fornece os planos de manejo para a exploração de madeira.
O madeireiro Vítor José de Souza, dono de uma serraria em Santo Antônio do Matupi, diz que a ausência do Estado favorece a devastação: “Um plano de manejo florestal leva 18 meses para sair porque tem de vir alguém de Manaus para fazer a vistoria.” Nesse meio tempo, os madeireiros clandestinos agem. O manejo florestal, garante Souza, gera mais dinheiro que o boi ou a agricultura: “Um lote de 100 hectares produz madeira suficiente para o cara viver sem fazer mais nada. Por que ele iria querer só desmatar?” Migrante do Paraná, Souza detém seis planos de manejo para abastecer a serraria.
Os madeireiros são obrigados a manter transitável a Transamazônica, usada para escoar a madeira para o sul do País. “Comprei 300 quilos de pregos e estou colocando dez caminhões com madeira para arrumar as pontes”, diz ele. Em muitos locais as pontes caíram e os veículos se equilibram em troncos estendidos sobre os rios. Essa não é a única evidência de que o poder público não tem sido capaz de fiscalizar. Os índios tenharins criaram um pedágio informal na rodovia – cobram R$ 15 dos carros, R$ 20 das caminhonetes e R$ 60 dos caminhões. A quem pede, dão até recibo. Os motoristas ainda são obrigados a lhes dar carona. Um caminhoneiro se negou e teve o veículo apreendido pelos índios. Em Novo Aripuanã, 150 crianças de dois bairros estão sem aulas desde janeiro. Embora a prefeitura pague aos professores, não há aulas.

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